Período do calendário católico marcado pela penitência, jejum e sacrifício, a quaresma, que antecede a Páscoa, é também tempo de esperança e renovação, como destaca o arcebispo da Arquidiocese de Cuiabá, Dom Mário Antonio.
O sacerdote destaca que o tempo quaresmal serve de reflexão para mudanças concretas de vida e aproximação com Deus, mas também de olhar com amor ao próximo.
Além da tradicional abstinência de carne e doces, o arcebispo recomenda o jejum da “língua” e de toda maldade. Ele demonstra preocupação com a crescente violência na sociedade mato-grossense, em especial as mortes de pessoas em situação de vulnerabilidade e dos feminicídios, e ainda, aconselha para a distinção entre ‘verdadeiros profetas’ e os ‘mercadores da fé’.
Arcebispo Dom Mário – Uma das formas de resgatar os nossos fieis é convidar para as participações das celebrações, sobretudo na Páscoa. Temos o que chamamos de Tríduo Pascal, que iniciamos na Quinta-Feira Santa, indo até o Sábado Santo. São três momentos celebrativos: na quinta a ceia do Senhor, a sexta da Paixão e Morte de Jesus Cristo e no sábado, a Vigília Pascal da Ressurreição.
Temos a oportunidade de perceber e celebrar e aviventar o verdadeiro significado da Páscoa. O banquete, a ceia, acompanhado até de ovo de Páscoa, são símbolos que podem ajudar na celebração, mas não é o principal, mesmo que o comércio valorize isso por suas razões. Nós, na questão da espiritualidade, valorizamos como ponto central a vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo.
A conexão com Deus é sempre possível. Não obstante o pecado, o desvio e os erros. Evidentemente a conexão é para não permanecer num caminho que nos desvia a Deus, mas que nos aproxima dele, porque ele sempre vem ao nosso encontro. A Páscoa é esse tempo oportuno de que Deus venha ao nosso encontro e que espera que a gente, de boa vontade, vá ao encontro dele para permanecer o ano todo. Um dos sinais de que as pessoas demonstram essa vontade, são sacrifícios, renúncias, penitência.
Tem muitas pessoas que fazem realmente o propósito de deixar de lado a bebida, uma comida favorita, doces, isso é muito importante. Eu sempre digo ‘faça um propósito que você tenha condições de cumprir’, para não ficar frustrado. Só que isso tem que ir além do material. Tem que atingir o espiritual. A gente diz que se faça o jejum, a abstinência de carne. Ótimo. Mas também doar aquilo para as famílias pobres. A Sagrada Escritura aconselha a fazer jejum da língua, da maldade, da injustiça, da opressão. É isso que vai nos manter não só na conexão com Deus, mas Deus dentro de nós.
Isso corta o coração da gente. Como dizem: “Morre mais um”. É mais um que está na marginalização, na escravidão, opressão. Às vezes ignoramos aqueles que vão para as drogas, a prostituição, que incorrem em situações de violência.
Precisamos administrar a nossa vida no aspecto da ira. Quando não administrada, ela vira mágoa, ódio, vingança e através das violências até mesmo mortes e assassinatos. Hoje, mais do que nunca, a gente precisa de obras de misericórdia, sociais, seja por parte da igreja, instituições civis, governamentais, jurídicas. Olhar a vida do ser humano com possibilidade de resgate, com esperança.
A verdadeira vida cristã não ignora os sofredores. Não ignora aqueles que hoje são crucificados pela sociedade, senão até pelas religiões. Por isso, estamos num tempo oportuno de reflexão e de ação. Basta a toda e qualquer forma de violência, inclusive a violência contra as mulheres, e estarrecedora a realidade do feminicídio em nosso Brasil, inclusive no nosso estado do Mato Grosso!
Precisamos combater toda e qualquer violência dentro e fora dos nossos lares, em qualquer canto da nossa sociedade ou até mesmo em nossas comunidades religiosas e apontar um caminho novo, do amor, compreensão, reconciliação, verdade, justiça. Um caminho que não se consegue fazer sem a presença de Deus no coração.
Essa é uma realidade que preocupou muito Jesus Cristo. Em uma cena bíblica, Ele está diante de um grupo de fariseus que apresentam uma mulher, surpreendida em adultério. Pela lei, ela deveria ser apedrejada. Na verdade, pela lei, deveria ser apedrejado também o homem, mas ele não é apresentado na cena, somente a mulher. E Jesus não executa a lei friamente.
Quem executaria a lei diria: ‘Tá ótimo, tá provado o adultério, então deve ser apedrejado’, mas Jesus olha a condição da mulher, valoriza a vida. Os hipócritas, os fariseus da época de Jesus, tinham a
Não podemos viver a Páscoa como um evento. Ela deve ser um processo que permanece e se prolonga. As celebrações que temos agora na Semana Santa, elas às vezes até são um pouco longas, mas mais do que longas, elas têm que se prolongar na nossa vida, na mentalidade, na vivência da celebração, do mistério da redenção. Permanecer no nosso dia através das nossas atividades de amor, de misericórdia, de justiça, na prática dos mandamentos, na vivência das bem-aventurança, através dos nossos propósitos em Jesus Cristo.
O retorno de Jesus é certo. A imagem bíblica, é surpreendente. Como o ladrão, que evidentemente é uma metáfora, uma figura de linguagem para dizer que o retorno de Jesus é surpreendente. Não tem dia e nem hora marcados. Ainda bem, porque, imagine se já estivesse marcado a vinda de Jesus para mim daqui 3 ou 4 anos? A gente começava a se apavorar. Mas olha, ele nos dá todo esse tempo para a nossa chamada conversão.
Jesus não quer apavorar ninguém. Ele quer nos dar uma chance a cada dia e a cada momento na nossa existência. Para Deus, um minuto de conversão é valioso para salvar uma vida. Não que a gente deva viver fazendo mal e deixar para o último minuto fazer o bem. Por isso é feliz quem vive desde já fazendo bem, porque ganha sentido e significado na sua vida. Por isso a insistência da Sagrada Escritura na conversão, na mudança de vida e de permanecer na graça do Senhor, fazendo o bem, amando a todos.
Não podemos viver a Páscoa como um evento. Ela deve ser um processo que permanece e se prolonga. As celebrações que temos agora na Semana Santa, elas às vezes até são um pouco longas, mas mais do que longas, elas têm que se prolongar na nossa vida, na mentalidade, na vivência da celebração, do mistério da redenção. Permanecer no nosso dia através das nossas atividades de amor, de misericórdia, de justiça, na prática dos mandamentos, na vivência das bem-aventurança, através dos nossos propósitos.







